Enquanto o sertanejo vivia um momento ainda dominado por duplas masculinas, Paula despontou como mulher e artista solo. “Tive que ter a força de dois homens”, diz. Depois de chegar ao ápice da carreira, passou por um momento de desaceleração impulsionado pela pandemia de Covid.
Agora, ela retoma a rotina de shows com uma nova energia e lança seu oitavo álbum de estúdio, “Simplesmente Eu”. A música de trabalho do álbum é “Amar de Novo”, versão de “Set Fire to the Rain”, de Adele.
Com 33 anos de carreira e 41 de idade, a mineira de Sete Lagoas diz se considerar uma “jovem veterana”: ainda com estrada para percorrer, mas com um nome já cimentado na música brasileira. Ela também se prepara para estrear como atriz na novela das 19h, “Coração Acelerado”, em que vive uma avó que inspira a neta a seguir seus sonhos na música.
Em entrevista à reportagem, Paula fala sobre o processo de composição do novo álbum, o momento atual da carreira e os frutos que colheu até então. Confira abaixo.
PERGUNTA – Como foi o processo de composição dessa versão da Adele?
PAULA FERNANDES – Primeiro foi a parte burocrática, entramos em contato com os empresários para pedir permissão. Depois, quando enfim deram o ok, ela [Adele] pediu para ouvir uma guia voz e violão. Mandei e ela aprovou na íntegra, sem mexer uma vírgula na letra. Preciso dizer que isso é motivo de muito orgulho, porque nasceu de mim. É uma responsabilidade muito grande versionar o hit mundial de uma artista como ela.
P – A letra é sua?
PF – É minha, mas não é uma tradução literal. Me senti livre para criar. É uma música sobre uma mulher que foi traída, perdoou uma vez e enfatizou que não perdoaria novamente. A própria música foi me ditando o que eu queria dizer em português. A letra veio, aconteceu, e foi uma bênção a Adele ter liberado. É uma chance em quantos milhões?
P – O que você traz no novo álbum além dessa versão?
PF – É um álbum autoral a que dediquei tempo. Na pandemia, tive um momento de desacelerar que foi muito importante. Trabalho desde pequena e precisava disso. Logo que despontei, passei por muita cobrança. Tinha seis músicas minhas tocando na rádio e aquela expectativa pelo próximo hit. Precisei respirar. Sou uma compositora genuína, preciso de tempo. Estou vivendo um momento de serenidade, maturidade e trabalhando em uma velocidade diferente, não mais naquela sangria. Esse álbum é um resgate de mim.
P – Em 2019, você fez uma versão de “Shallow”, da Lady Gaga, que, ao mesmo tempo em que foi um estouro, recebeu também muito “hate”.
PF – Foi fenomenal. O que seria da luz sem a escuridão (risos)? Mas faz parte, foi uma canção que me deu muitas alegrias. É minha música mais ouvida nos streamings e eu ganhei um Grammy com ela [melhor álbum sertanejo por “Origens”]. Então, o que eu posso dizer? Só me deu alegria.
P – Você não tem medo de receber reações negativas de fãs mais ferrenhos que rejeitam versões, como aconteceu naquele momento?
PF – Sabe que durante um tempo eu também fui avessa a versão? Achava muita responsabilidade, muito difícil. Até que um dia caiu uma versão da Taylor Swift no meu colo e passei a ter outra percepção. A versão é uma forma de você emocionar seu país cantando na sua língua, trazendo aquela arte mundial de um jeito diferente. Muita gente não entende a letra original. Sou uma representante nacional fazendo isso, tem que ser motivo de orgulho. Vai ter sempre aquele que não vai gostar e faz parte, a gente está acostumado.
P – Você foi uma das pioneiras como mulher na fase do sertanejo em que você surgiu. Hoje o sertanejo feminino vive um estouro. Como vê sua trajetória?
PF – Me sinto orgulhosa de ser uma artista que representa o [sertanejo] feminino, esse movimento que está tão forte hoje, que eu apoio e levanto a bandeira. Contribuí para pavimentar uma estrada. Não fui a primeira, mas naquele momento de 2009, 2010, eu estava acontecendo. Espero que venham muito mais, que a gente passe pelas cidades e veja os outdoors de shows com artistas mulheres, não só homens.
P – Foi difícil ser a única mulher naquele momento?
PF – Sim. O sistema sempre foi muito preparado para as duplas masculinas, então eu tive que ter a força de dois homens. Superei machismo, superei falas do tipo: “Mulher no sertanejo não dá certo, música lenta não dá certo”. E tem uma coisa que eu talvez nunca tenha falado em entrevistas: existia preconceito pelo fato de eu ter namorado e acharem que o namorado ia me impedir de trabalhar. Como se a mulher não pudesse ter autonomia e sair para tocar no final de semana. A gente vem vencendo isso. Depois de mim veio a Marília Mendonça e, agora, tantas outras artistas que estão mostrando que a gente é capaz.
P – Queria que comentasse um pouco sobre “Coração Acelerado”, a novela das 19h de que você está participando.
PF – Estou apaixonada! A Cecília [personagem da cantora] é, de certa forma, inspirada em mim. É uma avó que pavimenta a estrada para a neta. É uma mulher que tem o sonho de cantar, mas tem um marido muito machista. Ela morre cedo, mas inspira a neta a seguir nessa busca pelo sucesso na música. É uma novela musical, fico com o violão na mão o tempo todo.
P – Que conselho você daria para essa “neta”, para uma artista que está começando?
PF – Siga o caminho mais longo. Porque a chance de percorrer o caminho mais curto eu tive inúmeras vezes. Principalmente por ser mulher.
P – Em que sentido?
PF – Em todos que você pode imaginar. Já levei muita cantadinha, já ouvi: “Se você fizer isso, vai conseguir aquilo”. Não passei pelo teste do sofá porque eu levantaria dele. O fato de ser mulher tem isso: às vezes, a pessoa te contrata achando que você vai no pacote. Eu realmente não cedi, não me prostituí, não me vendi. Enfrentei tudo na cara e na coragem com pessoas que abraçaram meu trabalho.
P – Que balanço você faz da sua carreira até aqui?
PF – Muito positivo. Tenho muito orgulho da minha história. Digo que sou uma jovem veterana, porque comecei muito nova e tenho muito tempo de carreira, ao mesmo tempo em que ainda tenho coisa para viver. Depois que conquistei o que eu chamo de céu, pensei: “O que existe depois do céu?”. Vivi o ápice de uma carreira e me confrontei: “O que eu faço agora?”. Desacelerei para voltar a mim e ao processo de composição. A gente leva muito tempo para compor um álbum, não é tarefa fácil.
P – E o que tinha depois do céu?
PF – Descobri que estabilidade é a melhor coisa do mundo. Alcançar é difícil, mas permanecer é mais difícil ainda. Eu quero a velocidade de cruzeiro. Quero ter vida pessoal, vida social, família, curtir os momentos com meu cachorro e com minha mãe e estar no palco com meus fãs. O verdadeiro sucesso é o que estou vivendo hoje. Aquele sucesso de 220 apresentações por ano me adoeceu de certa forma. Foi maravilhoso, incrível, viveria tudo de novo, mas não tinha mais espaço para mim mesma.


